| Resumo: | Na Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer sustentam a tese de que mito e esclarecimento mantêm entre si não uma simples relação de oposição, como postulado pelo pensamento iluminista, mas, antes, uma relação dialética, de modo que o mito já comporta algo da racionalidade autoconservadora do esclarecimento, enquanto permanece no esclarecimento um núcleo de irracionalidade mítica que termina por reconduzi-lo à barbárie. Na explicitação dessa relação, aparecem, como centrais, os conceitos de sacrifício e de renúncia - esta última entendida como interiorização daquele primeiro - porquanto podem revelar, segundo a argumentação dos autores, "tanto a unidade quanto a diferença da natureza mítica e do domínio esclarecido da natureza". (Dialética, pág. 16). Domínio este que se exerce não apenas sobre a natureza extra-humana, mas também, e sobretudo, sobre a natureza intra-humana, num processo que os autores denominam introversão do sacrifício e que se constitui como ponto de revés do esclarecimento em mito. O sacrifício, em sua dupla articulação com a astúcia e com a renúncia, apresenta-se, assim, como sendo o índice da inverdade tanto no mito, ao expor seu caráter racional, quanto do esclarecimento, ao expor seu caráter mítico. Numa tentativa de refletir sobre o papel de tais conceitos na articulação interna da Dialética, tomamo-lo como objeto do nosso trabalho. Partindo de uma visão em retrospectiva das principais obras e autores referenciados por Adorno e Horkheimer, procuramos verificar quais pressupostos teóricos assentaram as bases dos conceitos em questão, como são eles utilizados na construção da estratégia argumentativa da Dialética e qual a importância que assumem para a idéia central que a perpassa, a saber, o entrelaçamento entre Mýthos e Logos. Como complemento do trabalho, buscamos ainda vislumbrar outras possibilidades de leitura do fenômeno do sacrifício, sem nenhuma pretensão de esgotá-las ou torná-las conclusivas. |